Histórico
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Até o dia 06 de junho de 1998, então com quase dezenove anos eu era um rapaz como muitos outros de minha idade. Preocupado somente com o dia de hoje: levantar bem cedo, ir para a academia antes da faculdade, assistir as aulas de Engenharia que cursava na época, voltar para casa, preparar a moto e os equipamentos e treinar na parte da tarde. Final da tarde retornar à academia para dar continuidade ao condicionamento físico. Na época praticava motocross, disputando campeonatos estaduais, nacionais e internacionais. |
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Essa foi sem dúvida nenhuma uma época muito boa de minha vida. Época em que todos nós temos o privilégio de aproveitar a irresponsabilidade que a vida nos proporciona antes da maturidade. Planos, para ser sincero, eu não tinha. Sabia que não seria um piloto profissional. A prática do motocross era um lazer, uma diversão. Mas hoje eu penso que estava, talvez, me preparando para o que seria preciso fazer em minha vida: |
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O desafio de superar meus limites, não desistir mesmo que a corrida parecesse perdida, buscar adaptar-me a todos os imprevistos: lama, chuva, buracos, pista novas e terrenos diferentes. E principalmente, depois de um tombo que me deixava lá atrás, no chão: FAZER UMA CORRIDA DE RECUPERAÇÃO.
Foi daí que eu parti: do meu tombo naquela corrida
Foi por isso que surpreendi a todos os amigos que iam me visitar, no hospital e depois em casa, com a minha reação de otimismo e bom humor. O baixo astral que todos achavam que iria acontecer quando “caísse a ficha” da gravidade do acidente nunca aconteceu. Ou melhor, a ficha caiu de imediato, acho que já na pista antes de ser removido para o hospital. Tomei consciência que só me restava escolher entre duas opções: desistir de tudo ou correr atrás do prejuízo. Sabia perfeitamente o que seria de meus pais, amigos e familiares se optasse pela primeira. Eu não tinha o direito de fazer isso com eles. Tenho certeza que meus pais e familiares estavam nessa mesma encruzilhada aguardando minha decisão: então por eles e por mim, nem sei em qual ordem, resolvemos todos correr atrás do prejuízo. O interessante é que esse acordo foi realizado de imediato, sem que usássemos uma palavra sequer para formalizá-lo. Tanto quanto ocorria nas pistas, quando a corrida estava em andamento, e surgia um imprevisto, víamos somente o que tinha de ser feito e fazíamos.
Não vou negar que houve muitos momentos em que deu e dá vontade de desistir. Vontade de jogar tudo para o alto. Pensava “Porque foi acontecer logo comigo”. Mas por outro lado eu continuo encarando como um grande desafio. Sei que meus limites em todos os sentidos estão sendo testados. Tenho muita fé em todas as possibilidades: em Deus, na Ciência e em mim mesmo. Aliados nessas forças tenho certeza que estamos só começando a ganhar esse Grande Campeonato. São várias as etapas à vencer e conquistar mas o podium será meu com certeza.
No ano que sofri acidente minha fisioterapia era de aproximadamente 9 horas por dia, fazendo somente treino de solo, eletroestimulação. Como todos os profissionais dessa área médica sempre me falaram a mesma coisa, o que eu conseguisse nesse primeiro ano de melhora, a probabilidade de estabilizar, seria muito grande. E por esse motivo foi que me enfiei de cabeça na fisio.
Hoje meu tratamento conta com fisioterapia, condicionamento físico e o tratamento com a célula-tronco. A duração da fisioterapia é de mais ou menos
No condicionamento físico, faço treino em uma academia, onde trabalho meus membros superiores, pois para agüentar a fisioterapia, meus membros superiores têm que suportar o “tranco”.
Células Tronco
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Há cinco anos atrás meu médico, Dr. Tarcisio Barros, do Hospital das Clínicas, me convidou para o Protocolo da Célula-Tronco. Desde a primeira consulta o médico, me alertou que seria uma experiência e não saberia o que poderia acontecer, mas uma coisa ele falou “se não fizer bem, mal não vai fazer”. Depois de dois anos e meio, muitos exames, consultas e expectativas vêm a notícia que estaria dentro do primeiro grupo selecionado. |
Foi uma sensação indescritível, pois misturava alegria, medo, esperança, ansiedade.Depois de toda essa euforia, comecei a me dedicar mais ainda a fisioterapia.
Origem da viqui – porque formar uma associação
Foi em 2002 que finalmente chegou a tão esperada hora, fiquei aproximadamente 10 dias no HOSPITAL DAS CLINICAS tomando injeções para estimular a migração da célula-tronco da medula óssea para a corrente sanguínea. No final dos 10 dias a hora de fazer a retirada da célula tronco através de um equipamento, que filtraria meu sangue.
Seis meses depois desse procedimento foi feita a infusão e depois seria esperar o resultado.
Feita a infusão, era intensificar o ritmo de fisioterapia. Nos primeiros seis meses a duração foi ampliada de 3 para 6 horas por dia, e não demorou muito para surgir algum resultado visível, como contração voluntária da coxa direita, que antigamente nem pensava que poderia conseguir em tão pouco tempo. Logo após começou aparecer às sensações como um toque forte ou fraco entre outras sensações perdidas depois do acidente.
Para conseguir chegar nesse resultado tive que ter muita força de vontade, persistência, perseverança. Sabe aqueles dias que dá aquela vontade de não sair da cama, então pensava que se desistisse seria o maior prejudicado. Foco nesses momentos meu objetivo: voltar a andar sem o auxílio da órtese e andador. Sem esquecer que os resultados obtidos por todos nós que fazemos parte desse estudo, podem significar a continuidade dessa terapia em maior escala, ou seja, para o grande número de pessoas que estão nessa mesma condição

Nesse meu processo de adaptação na minha nova condição de vida, deparei com muitas dificuldades. Principalmente o despreparo de tudo e de todos em lidar com o deficiente físico. Nesse despreparo eu incluo os próprios deficientes. Muitas vezes não sabemos como lidar com essa situação que por enquanto é relativamente inusitada.
Digo isso por experiência própria. Antes do meu acidente eu nunca tinha parado para pensar como se sente um deficiente vivendo num mundo despreparado para uma convivência harmoniosa com a sua deficiência. Não me refiro somente às barreiras físicas, tais como escadas, banheiros, etc, mas também às barreiras emocionais. E essas, muitas vezes são erguidas pelos próprios deficientes, quando recusam-se a conviver e expor suas próprias limitações. Percebi que quanto mais eu me abrir e derrubar essas barreiras, mais fácil fica a convivência social. As pessoas estão sempre dispostas a ajudar, o que as afasta muitas vezes, é o medo de magoar o deficiente.
Aqueles que convivem comigo sabem que desde o início eu sempre procurei não me afastar da convivência social. Freqüentar praia, danceterias, restaurantes só me ajudou a retomar a minha vida. Não fiquei esperando os lugares se adaptarem. Se não havia acesso, o que me daria uma certa independência, não via problema nenhum em convocar qualquer pessoa que estivesse por perto para me ajudar e até me carregar se preciso fosse. Eu é que não deixaria de me divertir por causa disso. Mas notei que em todos esses lugares eu praticamente era o único que estava fazendo isso. E eu sei que o que não falta é pessoas da minha idade nessa mesma situação. Daí começou a nascer minha vontade de criar a VIQUI. Uma associação onde eu pudesse de alguma forma compartilhar meus sentimentos, minhas experiências e minhas dificuldades com outras pessoas.
Essas mudanças internas fizeram inclusive com que eu revisse minha decisão a respeito de minha profissão. Foi quando larguei o curso de Engenharia e comecei a fazer Direito. Percebi que essa minha nova opção seria uma ferramenta a mais para a minha tão sonhada Associação. Através dela poderia orientar e alertar para a imensa quantidade de direitos que todo deficiente tem e que por total ignorância do fato não reinvidica. O Brasil possui uma das legislações mais completas nesse âmbito, só precisamos, portanto, conhecê-la e fazer valer nossos direitos.
Tenho uma vida normal atualmente estou cursando o 4° ano de Direito, trabalho como estagiário num escritório de advocacia, sou presidente de uma associação de deficiente, saio para balada, minha vida social não é mais a mesma mudou e muito, só que graças a Deus mudou para melhor, hoje minha vida social é mais agitada, do que antes do meu acidente.
Hoje essa Associação já não é mais um sonho. Ela existe e agora só precisa da participação de todos os interessados, para crescer e se consolidar.



